Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
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2018

Eu já recebi a minha prenda de Natal!

Crónica de 19 / 12 / 2017

Ainda faltam uns dias para o Natal mas eu já recebi a minha prenda!

Recebi até várias, assim num género de lotaria natalícia!

A primeira prenda recebi na semana passada, quando conduzia pela cidade, perdida, à procura de um sítio onde me dirigia para uma reunião.

Vi casas e casas sem fim, abandonadas, degradadas. Por dentro, praguejava o facto dos GPS aqui serem mais lentos que um caracol perneta. Depois olhei de repente para o lado e vi um sem-abrigo com um ar de tranquilidade estampado na cara. Percebi que esta ideia de tentar controlar tudo é um mito. Quando percebemos que não controlamos nada, percebemos que tudo só pode correr bem.

Quantas vezes cheguei a casa e continuei a olhar para o telefone, à espera de notícias, à procura de novidades. Esta semana cheguei a casa, pousei o telefone, e fiquei só a olhar para a minha filha a andar, sorridente, de baloiço na varanda da nossa casa. Foi tão bom ser recordada que a vida é o que acontece enquanto esperamos que ela aconteça. Tão bom voltar a viver no agora.

Fui jantar com umas amigas no outro dia. Ou melhor, eu fui jantar, elas beber um copo porque iam sair a seguir... para jantar. Às 20.30 fui para casa e perguntaram-me se não tinha pena de ir sair com elas. Disse que não. E sentia-o. Hoje em dia sei que grande parte das vezes que sai era porque não sabia estar sozinha em casa. Hoje acho que me faço uma excelente companhia.

Dos sentimentos que mais tive no início desta recente emigração, foi um sentimento de solidão. Era um sentimento eu própria reforçava. Esta semana cheguei a casa e pensei: que abençoada sou: tenho a minha filha. um tecto. E um emprego. Que podia eu pedir mais?!

Ontem, quando saia do trabalho e reclamava sozinha do estado das estradas e do trânsito, e do facto do carro que uso saltar muito, olho em frente e vejo uma senhora a andar, de canadianas, nessa mesma estrada de areia cheia de buracos. Canadianas essas que usava a vida toda pois não tinha uma perna. Pensei melhor. Que bom, afinal, era poder estar no trânsito. Dentro de um carro que salta. A conduzir naquela estrada de areia, cheia de buracos. Sem qualquer preocupação que não fosse fútil.

A minha árvore de natal está vazia. Não tem uma única prenda. Mas o meu coração está cheio. Eu já recebi todas as prendas de Natal que podia pedir.

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