Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
Todos os direitos reservados.
2018

Cada passo dela, um pedaço de mim.

Crónica de 05 / 01 / 2018

Penso que a maior e mais difícil aprendizagem da maternidade é a de que tudo muda, nada dura, e o que parece que é, rapidamente não é...

Eu, uma especie de control freak por necessidade, vivia obsecrada inicialmente por sentir que masterizava a maternidade.

Não sou uma control freak por natureza mas gosto de ter a certeza que as coisas vão correr bem. Essencialmente para depois poder relaxar.

E como, na minha verdadeira essência, está mais o relaxamento que o controlo, a maternidade obrigou-me a obcecar inicialmente com o controlo para garantir que, por exemplo, não saia de casa e me esquecia da comida para a miúda. Já que de fraldas me esqueci algumas vezes e até cheguei a estar numa restaurante com a cachopa embrulhada em papel de secar as mãos...

Mas como dizia, acho que cada vez que sentia que já estava a fazer algo bem, batia palmas internamente de alegria e verdadeira sensação de sucesso. Que durava muito pouco porque assim que eu tinha a certeza que fazia alguma tarefa bem (reconhecer fome ou sono, aliviar dores ou mau-estar, tempo de cozedura, temperatura da agua, etc etc...) o raio da miúda mudava-me o bico ao prego e fazia-me voltar à estaca zero.

Foi assim quando dominei a arte dela dormir duas sestas. Passou a dormir só uma.

Foi assim quando dominei a arte de saber que ela queria leite. Passou a comer sólidos.

Foi assim quando dominei a arte dela andar sem cair. Passou a correr.

Acho que nós mães temos esta relação umbilical com os nossos filhos onde, na verdade, ele vai sendo cortado ao longo da vida. Não por nós, mas sim por eles.

E cada passo deles em direcção à verdadeira independência de nós, arranca um bocado de nós, devagarinho, sem consequências graves mas com alguma dor.

E foi assim que, habituada que eu estava a po-la para dormir, há 4 anos, com um kit de seu nome "xuxa e coelhinho" ela, de repente, com muito mais pressa e sem aviso do que saiu de dentro de mim, larga a xuxa, abandona o amigo, e passa, qual menina crescida, a dormir sem nenhum dos dois.

Dirão alguns de vocês que é assim mesmo que deve ser e blá, blá, blá whiskey saquetas. E sim, claro que é assim. Mas da mesma forma que a gravidez e o parto não são um estalar de dedos, também a absorção destes momentos que, a cru, nos mostram que os nossos bebés não o são mais, não deve ser feito a sangue frio.

Não olhei mais para a xuxa mas olho diariamente para o coelhinho dela, olho-o e parece-me um órfão, ou uma velharia, a quem a vida não dará outra oportunidade. O que me lembra que também eu não terei nova oportunidade de ver a minha filha ser bebé.

Nunca mais vou sentir o cheiro dela de bebé. Muito menos pegar-lhe ao colo com uma só mão. Nunca mais vai adormecer ao meu colo, onde inclusivamente já mal cabe. E o vesti-la enquanto ela deitada sorria para mim, deu lugar a eu correr atras dela para a vestir porque estamos atrasadas para a escola.

Mas tudo passa e tudo dá origem a novos desafios. E vai-se a ver o coelho ainda me vai ser muito útil quando chegar a fase de ter namorado e eu a tentar convencer que bom, bom, era este coelho...

Mais Crónicas:

-->