Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
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2018

Já vos falei da minha obsessão com o termo "casa"?

Crónica de 05 / 01 / 2018

Acho que já falei aqui várias vezes da minha obsessão com a questão da casa.

Casa no geral, assim do género dicionário "do latim... (blá blá blá)". Em ingles home etc etc

Mudei muitas vezes de casa na minha vida o que me obrigou a não ser agarrada às casas em si, dixit infra-estrutura, mas muitas vezes aos objectos que levava de casa para casa, como sendo apenas esses que me permitiam ter a sensação de história.

As casas são um pouco como as cuecas: quanto mais crescemos, mais pequenas são. (É uma teoria da minha avó sobre quanto mais crescermos e engordamos, estranhamente, mais pequenas são as cuecas que usamos ;)). Eu penso isso das casas.

A verdade é que quanto mais pequenas se tornaram as casas que habitei ou que partilhei, menos objectos meus tinha a permitir-me ter esta sensação de história.

Quando me separei, quis dar exactamente o que não tive à minha filha: a sensação de ter uma casa onde cresceu. Deixei-a pintar nas paredes, imaginando como se riria daqui a uns anos das suas capacidades gráficas. Fiz picnics no chão, tirei fotografias de nós no chão da cozinha. Tudo fazia parte desse plano. Tola eu achar que os meus planos poderiam sobrepor-se aos planos da vida.

Já vos contei como acabei por emigrar: sem trabalho há anos, sem conseguir transformar o blog numa fonte de rendimento fidedigna, toca de fazer malas e recomeçar de novo.

Não me custa recomeçar, confesso. Mas custou-me deixar para trás o meu plano. O meu plano de fazer definitivo o meu canto e o da minha filha.

Quem me conhece, sabe que foi das coisas com que mais lutei: a casa de lá, a casa de cá, a casa, a casa, a casa.

A minha mãe, para tentar combater esta luta que me via causar sofrimento, preparou uma casa para eu me sentir em casa quando chegasse. E eu, aparentemente ingrata, não me senti logo em casa. Porque não são os objectos que nos fazem sentir em casa.

Todo este tempo sentia que em Portugal é que estava a minha casa. os meus objectos. E não me apegava aqui.

Engraçado como as crianças são mais espertas que nós, adultos, e há muito que a Clara não quer falar de Portugal para não sofrer com as saudades, por mais que as sinta.

*Já eu mantinha-me presa a um passado que já passou, a tentar passar entre os pingos da chuva desta coisa chamada presente.

A verdade é que só há uma coisa que nos pode fazer sentir em casa. Uma. E ela não é um objecto do passado. Nem o tamanho ou preço dos novos objectos adquiridos.

A única coisa que nos pode fazer sentir em casa é o tempo. O tempo que nos faz criar memórias, ainda que recentes, dos espaços novos. O tempo que nos faz já fazer xixi à noite de olhos fechados. E o tempo que faz com que, mesmo que compres um objecto novo para a tua casa, é o objecto que desejaste, porque antes dele havia uma vazio, vazio na casa que passaste tempo a contemplar. E é esse tempo de contemplação que fez com que aquela fosse a tua casa.

Emigrar não é o acto de apanhar um avião e mudar de país. Emigrar é largar tudo o que te é familiar. Encaixotar o teu passado acreditando que não vai ganhar pó. Abrir um livro em branco acreditando que o que vais escrever vai valer a pena ler. Emigrar é acreditar que a caneta com que nunca deixaste de escrever a tua história ainda tem muita tinta. Porque tu ainda tens muitas histórias para escrever. E casas para desenhar.

Passados quase dois meses, aceitei só agora que me irei sentir em casa. Não é já. Mas será. Porque melhor que ter uma casa, é ter uma caneta que a pode sempre desenhar.

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