Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
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2018

O que delegava (e o que não) nesta coisa de ser mãe

Crónica de 08 / 01 / 2018

Passada aquela fase inicial onde até um cocó fedorento parece obra de uma criança certamente iluminada e especial, o tempo vai diluindo o prazer que tínhamos em tarefas, percebemos depois, altamente horrorosas.

Assim, e passados quase 4 anos, deixem-me que vos diga que comecei a reclamar de ter de sujar as minhas mãos de cocó. Mas a reclamar alto e a bom som. Reclamação esta que percebi ser mais que justa quando a minha própria filha me diz que ela também não está para sujar as mãos com o SEU próprio cocó!!!...

Posto isto, decidi fazer-vos uma lista de tudo o que delegava sem qualquer questionamento do meu papel de mãe, e do que na verdade, mesmo com esforço, continuo a gostar de fazer:

  1. Nunca mais tocava em cocó na vida. Nunca. As soluções são várias desde não a deixar sir da escola sem fazer cocó, a pagar um curso rápido e intensivo de limpeza e lavagem de cus para crianças.

  2. Dar banho. Aquela actividade que já foi dos maiores prazeres da vida de uma mãe. Quando o ser era minúsculo e basicamente flutuava, a sorrir na agua. Naqueles tempos em que tomar banho não era motivo, permanente e diariamente de discussão, porque é longo e por que é curto. Porque a agua está quente e porque a agua está fria. Porque é duche e porque é banho. Porque não quer tomar e porque não quer sair. Enfim, delegava em 80% das vezes esta extrema felicidade.

  3. Arrumar a cozinha. Tem dias. Se comeu arroz, gostava que me desse uma dor de barriga que me obrigava a estar no WC até os 500 mil, 894 aos de arroz evaporassem milagrosamente. Se o jantar for pizza, tudo bem. De preferência em pratos de plástico. Digamos que gostava de guardar liberdade para delegar ... hum... sempre que me apetece?!

  4. Ir buscar à escola. Gosto de ir sempre. É daquelas actividades que ainda me faz parecer uma mãe totó, lamechas ou presa para sempre no mundo do amor de mãe: gosto de ir. Gosto de ir todos os dias. Fico feliz só de chegar a hora de a poder ir buscar. E chego a dizer, tipo romântica inveterada, que a família vem sempre antes do trabalho. Isto sem ninguém me perguntar nada...

  5. Legos. Se já houve alturas que até bolinhas de cuspe podia fazer horas a fio desde que isso a fizesse feliz, hoje em dia Legos é aquela actividade - eventualmente porque eu so sei fazer torres e olha lá - que rapidamente, ou quase imediatamente, me lembram que tenho qualquer coisa e muito im portante para ir fazer ... ali!

  6. Conversar. Gosto muito de conversar e esta parte não me cansa nada. Até porque às vezes posso dar uma "de gajo" e só ouvir assim na diagonal. Mas gosto que ela me conte as suas ideias, mesmo que não façam sentido, adoro as confissões antes de dormir, que são sempre bastante profundas... tanto às vezes que não são reais, e amo especialmente quando nos sentamos à mesa, todos os dias, e falamos de tudo e de nada. Como quem tem, e pode, dizer tudo. E nada. Uma à outra.

  7. Arrumar brinquedos. Ou meter os dedos na tomada. Acho que hoje em dia escolhia a segunda opção. Epá... mas quem decidiu dar a um ser pequeno a capacidade de desarrumar tanto como um furacão em nano-segundos?! E porquê dar-lhes esse poder... sem o dar de forma estética e organizada?! Tipo... desarrumar só no quarto?! Desarrumar, rearrumando?! Desarrumar para dentro de um armário, gaveta ou caixa escura na casa dos vizinhos?! Tanta alternativa e falta de criatividade ó criadores...

  8. Escolher a roupa. Chateava-me quando ela era pequena e basicamente ficava era bem confortável num saco de batatas com uma fralda colada, mas as roupas de bebé têm sempre aquele ar de que a qualquer momento vão para uma reunião com o presidente. E que, como não têm, estão sempre com aquele ar excessivamente produzido... mas altamente imaculado...Agora que ela já é uma pessoa normal (ou seja, anda, corre, o braço mexe quando é para enfiar uma manga...) gosto de escolher a roupa e pensar nas brincadeiras todas que vai fazer... saboreadas, por mim, quando chegar a casa com a roupa parecendo sair não da reunião com o presidente, mas sim de uma guerra medieval pelo lugar de presidente. Uma oração a quem inventou a máquina de lavar e os programas a 90 graus, e toda a gente fica feliz.

  9. Cozinhar. Juro que houve uma fase da minha vida que dava um mindinho ou anulava a minha depilação definitiva com esta historia de cozinhar. 20 gramas de proteína de carne branca. Mais 10 gramas de hidrato sem gordura. e 15 gramas de legumes cozidos a vapor, com 1 ml de azeite biológico e de origem controlada. Mais sopa. Repete 2 vezes ao dia. todos os dias. Xiça penico. Finalmente chegámos à fase que se lhe der massa com carne todos os dias fica feliz. Ela e eu. O mesmo prato todos os dias. A felicidade todos os dias. É tipo o nirvana da cena maternal.

  10. Dizer não. A primeira vez que tive de dizer Não! à minha filha ia-me saltando um órgão de tanto sofrimento. Ainda era bebé e eu achava que aquilo ia ser assim, fluido e cor-de-rosa para sempre. Até que não. Percebi que o ser vinha com vontade própria. Que não era o de uma freira de convento ou de um monge budista que sente que encontra a felicidade a limpar a casa. Quem me dera. Mas na verdade quem passou a rezar fui eu. Rezar para ver se dizia menos vezes Não!. Ou dizia Não! em menos decibéis. Ou a rezar para que houvesse uma espécie de luz divina que dava assim um leves e celestiais mini-choques de forma a que ela parasse de fazer os 1,000,000,000 de disparates que faz por dia. Enquanto eu estava ali, calada e serena, a sorrir, como qualquer mãe gostaria de estar. Mas só estaria se pudesse um busto de barro. Assim já meio torto de sofrimento como o do Cristiano Ronaldo.

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