Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
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2018

As crianças e as bolhas.

Crónica de 09 / 01 / 2018

Ontem escrevi este post no meu facebook pessoal:

"Percebi que a minha infância podia ser muito mais feliz quando comecei a viver no Brasil, e brincava, descalça, quase a qualquer hora do dia, na rua com as meninas e meninos do prédio. Em Portugal não havia esse conceito, de deixar e juntar as crianças na rua. De valorizar a brincadeira. De ter o calor a ajudar. De achar que “descalço e na rua” é o nome do meio de cada criança.
Hoje chegamos a casa e estavam no parque de estacionamento 2 crianças. As 3 entreolharam-se como quem reconhece um amigo na multidão.
“Queres ficar a brincar na rua com as amiguinhas, Clara?” Estrelas nos olhos. Nos dela e nos meus: consegui dar-lhe algo pelo que esperei 35 anos.
Voltou para casa hora e meia depois. Feliz. Muito antes de entrar em casa."

No outro dia alguém comentava comigo que sentia que vivia numa bolha. Por bolha leia-se, um condomínio fantástico, com segurança privada, piscina e casa digna de revista. E estrangeiros. Só estrangeiros. E esta pessoa percebia que ao lhe darem as "condições ideais" a forçavam, a ela, à sua familia e à sua filha pequena, a não ter qualquer contacto com o país onde vivem.

Pudesse eu (pagar, leia-se...), é provável que tivesse numa casa dessas. Afinal quem não gostaria de chegar a casa ao final da tarde e dar um mergulho numa piscina quentinha?!

Felizmente, não posso. Pelo que estou num apartamento muito simpático e grande apesar de antigo, onde a Clara pode brincar na rua, que é simultaneamente o parque de estacionamento, com crianças de todas as cores. Neste prédio onde uma vizinha já me bateu à porta para perguntar a que cheira a minha casa. E outra me convidou para ir comer chamussas e caril, pedindo desculpa pelo barulho que fariam pelo aniversário do seu sobrinho. E a mãe de uma destas crianças que ontem levou a minha filha para sua casa e lhe ofereceu um lanche. Passando pelo guarda que bebe chá depois de ferver água numa chaleira que deita faiscas cada vez que está ligada à tomada.

A verdade é que o desenvolvimento veio acompanhado de um sentimento de insegurança, e a procura por conforto veio acompanhada de isolamento e isto é verdade em qualquer país do mundo: quanto mais espaço tens para ti, mais distância tens dos outros.

Eu lembro-me da primeira vez que vim a Moçambique com a minha filha e que ela reparava na cor das pessoas. Questão que agora não só não repara como não liga.

E lembro-me de muitas vezes ir com ela aqui a jardins e parques e muitas as crianças partilharem a sua comida com ela. Enquanto ela não o faria até à pouco.

E, todos os dias, quando a vejo reforçar o seu mapa mental do mundo, aonde pertencem todas as crianças possíveis e imaginárias, sei que o mundo é bastante mais colorido e bonito fora da bolha.

E assim sei que, um dia, quando ela for adulta, será ela a bater à porta dos novos vizinhos e perguntar se querem um lanche, ou trazer os filhos dos novos vizinhos para casa dela e dar-lhes um lanche.

E sei que, seja de que tamanho for a casa dela quando crescer, estará sempre cheia. Assim como o seu coração.

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