Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
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2018

O preço de ter um pipi.

Crónica de 10 / 01 / 2018

Confesso que a conversa da igualdade e desigualdade, na Europa, muitas vezes me cansava.

Se era cartão de cidadão ou cidadã, porque é que os boletins de vacinas não são amarelos, se os livros sugerem carrinhos ou bonecas. Queria lá saber.

Não que a questão não me tocasse mas sentia que, muitas vezes, o foco era mais dramático que a realidade.

Já comentei algumas vezes que já trabalhei muito tempo em ajuda humanitária e já vi várias coisas que vivia bem sem ter visto. Mas nunca tinha trabalhado nesta área depois de ser mãe.

A condição geral da mulher e, especialmente, da rapariga no mundo inteiro é deprimente. Especialmente para uma mulher. E uma mãe. E uma mãe de uma futura mulher.

A pobreza atira a rapariga para a linha da frente da fragilidade, onde são vendidas pelos pais para puderem ter dinheiro para comer, são casadas com 12 anos na tentativa de que o marido as sustente e acabam aos 15, com vários filhos, abandonadas e ainda mais à mercê da pobreza.

Raparigas com 19 anos, múltiplos filhos, tristes pois o marido só lhes liga quando não estão grávidas. E rapidamente as engravidam outra vez pois o planeamento familiar não é fácil quando estás onde Judas esqueceu as botas. E muitas vezes acho que as deve ter esquecido de propósito, pois a vida destas meninas envergonha qualquer discurso sobre um mundo dito desenvolvido.

Prostituição. Fome. Doença. Juventudes roubadas. Neste mundo ainda se paga um preço muito caro por ter pipi. Neste mundo ainda há muita falta de bonecas cor-de-rosa, cheias de laçarotes, maillot cheios de folhos e purpurinas e todas as outras merdices femininas para as meninas brincarem. Para as meninas puderem ser meninas. À vontade.

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