Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
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2018

Depois de 4 anos, está concluída a minha tarefa.

Crónica de 24 / 01 / 2018

O aniversário de um filho, tal como o natal ou a passagem de ano, é, inevitavelmente, uma altura de balanço.

E, tal como no natal ou na passagem de ano, na véspera da minha filha fazer 4 anos, estou em processo de balanço.

Ele não é pensado nem forçado, é natural. E este balanço tem sido uma repentina e imprevista sensação de paz. De paz por ter cumprido a minha missão.

Ganda baldas! Então a miúda so vai fazer 4 anos! Como é que a tua tarefa está cumprida?!

Está, minha gente. Está. E disso tenho a certeza porque o sinto, com toda a certeza que so uma mãe, que vive de inseguranças e duvidas pode ter.

A vida de mãe é uma vida de medos, inseguranças, receios, dúvidas, questões, incertezas. Desde que nascem que tudo pode ser ou não. Tudo pode funcionar ou não. Tudo pode ser aquilo. Ou não.

Tudo, na nossa vida, desde que eles nascem, é a procura de encontrar a resposta certa, dentro de mil milhões de respostas possíveis.

Algumas de nós descobrem cedo que a resposta certa é a que dita o nosso coração. Outras de nós passamos mais tempo à deriva, a ouvir a opinião que todos insistem em dar, a ouvir o cansaço que se acumula, e a ouvir aquela ideia que nós tínhamos do que era o filho ideal.

Algumas de nós passamos muito tempo perdidas, indecisas entre os filhos que gostávamos de ter, os filhos que os outros gostavam que tivéssemos e os filhos que verdadeiramente temos.

Passados quase 4 anos sei que a minha fila sabe do que gosta e do que não gosta.

Sabe que tem de comer sopa. E dormir cedo aos dias de semana.

Sabe que se cair, chora.

Sabe que a mãe gosta dela sempre. Mas que me pode pedir abraços se sentir falta.

Passados quase 4 anos a minha filha sabe que existem emoções difíceis de gerir. Mas que eu estou cá para a ajudar a geri-las. Se e só se ela quiser.

Passados quase 4 anos ela sabe que as palavras podem ser pedras. E sabe que a mãe tem a função de a repreender quando ela se porta mal.

Passados quase 4 anos ela sabe que a mãe falha. Muito. Mas que também pede desculpa. Muito também.

Passados quase 4 anos, ela sabe quem ela é. E eu sei quem ela é.

Passados quase 4 anos, o desafio agora é deixa-la abrir as suas asas, na sua verdadeira extensão, e voar... voar sempre, voar muito. Cair, magoar-se, levantar-se. Pedir colo se quiser, sacudir a poeira e seguir em frente, se preferir.

Passados quase 4 anos o meu papel não é mais de a manter fechada no ninho. É de observar a borboleta a ganhar vida. Saber se defender do vento e esconder-se da chuva. Saber brincar nas flores e voar sobre o mar.

Passados quase 4 anos, está concluída a minha maior tarefa: a de ajudar a não ter medo de se conhecer. A não ter medo de cair. E a não ter medo de se levantar. A não ter medo de chorar alto. Ou rir ainda mais alto. A não ter medo de ouvir a sua verdadeira e mais profunda vontade. E a segui-la, para o bem e para o mal. Seguir sempre a sua voz.

Passados quase 4 anos, eu sinto que não tenho mais o que recear. Mesmo tendo tudo o que recear: porque passados quase 4 anos, ela é ela. Inteira e completa. De cabeça erguida. Do alto do seu pequeno enorme metro e dez.

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