Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
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2018

A grande armadilha de uma mulher: ficar em casa a ser Mulher.

Crónica de 06 / 02 / 2018

Fiquei 4 anos em casa, sem trabalhar.

Abandonei, de cabeça erguida, a carreira, ou algo parecido com isso..., e abracei a maternidade, a cozinha e a roupa.

Fui muito feliz nesses tempos e, se querem saber a verdade, parte de mim tem pena que eles não voltem para os saborear novamente.

Mas eu sei que há algo que eu não poderia nunca abdicar: a sensação que tenho ao fazer um trabalho que gosto, que o faço bem, e que me permite pagar as minhas contas e decidir se compro carne ou peixe ou se me dano nisso tudo e vou antes jantar fora.

Estou cansada sabem? Estou cansada como o raio. Não me posso queixar ou, como dizia no outro dia uma amiga, não esperes que tenha pena mas a verdade é que acrescentar ao trabalho já de si exigente de ser mãe o trabalho de ter um trabalho e de o fazer bem, de ir às compras e pagar as contas, de querer ir busca-la e pô-la à escola, de fazer amigos novos, de conhecer os novos colegas, de manter-se em contacto com os amigos e família, de fazer seguros de carros e de saúde, de tentar ir ao ginásio, de tentar não ter saudades e fazer toda a nova vida fazer sentido, a verdade é que que tudo isto cansa como o raio.

Mas há algo que me faz ter a cabeça erguida, sentir-me a fazer o correcto, sentir-me no caminho certo: ter um trabalho e pagar as minhas contas.

Sinto-o recentemente, ao comparar a minha segurança no futuro com a de outras mães e mesmo com a minha no passado: ficar em casa a cuidar dos filhos não deixa de ser abdicar da nossa independência, da nossa capacidade de, caso tudo corra mal ou mesmo que não corra, tomarmos conta de nós e da nossa família. E essa sensação é impagável.

Comecei a pensar em todas as mulheres que conheço que trabalham em casa e se não foram os maridos que lhes pediram. Penso nelas e na sua sensação de vazio quando os filhos crescem e saem de casa. E na maneira como toda a gente acha que pode opinar como elas gastam o seu tempo e o seu dinheiro, que parece nunca ser seu porque lhes foi "dado".

Comecei a pensar até que ponto esta situação não perpetua uma desigualdade, onde o homem está numa posição de maior liberdade onde ninguém lhe pergunta porque comeu costeletas ao almoço com os colegas em vez de pescada. Mas o que a mulher almoçou ou se almoçou fora parece ser permeável a opinião publica.

Comecei a pensar em todas as mulheres que conheço, divorciadas mais tarde na vida, ou ainda casadas mas com filhos crescidos que já não precisam das mães e de como, de alguma forma, vejo na maioria delas um desejo de ter mais opções, mais voos, mais certeza do tamanho das suas asas.

Comecei a pensar em como, antes de estar a trabalhar, sentia que precisava de permissão ou pelo menos de subtil aprovação às minhas opções. Fossem elas de supermercado, destino de férias ou da fútil ida à manicure.

Comecei a pensar em como a maior armadilha de uma mulher é ficar em casa a ser Mulher. Porque podia ficar em casa a ser pessoa. Ou só mãe. Mas não. A mulher que fica em casa fica porque se atribui, e se pressupõe, uma série de funções para a mulher que fica em casa.

E comecei a pensar que, todo o cansaço que sinto, toda a vontade que tenho de baixar os braços e voltar a uma vida calma e previsível, são muito inferiores à sensação que tenho de que consigo. E que é isso que a minha filha absorverá: que consegue. Sempre. Tudo. Ainda que às vezes seja um dia de cada vez.

(dizia-me, quase a propósito, hoje um colega sobre tomar decisões difíceis como viver longe da familia por trabalho: o cérebro deve ser programado, para saber que o que está a fazer é a melhor opção. Outros tempos virão, sempre.

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