Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
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2018

Estive a trabalhar num orfanato. E a conclusão é: nós, mães, somos um bocado parvas.

Crónica de 07 / 02 / 2018

Hoje estive a trabalhar num orfanato.

Na verdade é uma escola primária que tem uma parte de internato onde vivem crianças que são órfãs ou simplesmente não têm família.

A escola começa no ensino primário. E se acharem que estas são crianças grandes, desenganem-se: as crianças quando crescem com problemas de nutrição e desidratação são pequenas do alto dos seus experientes 5 anos. O que se nota ainda mais quando carregam mochilas do seu tamanho.

Umas estão felizes por começar a estudar. Outras desconfiadas e ainda outras desejosas de mostrar que, ao contrário dos amigos, já sabem pegar no lápis. Lápis por vezes que já muita escrita fez, não fosse a sua vida, ao contrário da da caneta, exposta a olho nu.

Um dos trabalhos que viemos fazer foi entrevistar os alunos de várias idades do internato. Fizemos 6 entrevistas.

Quando deixaste de morar com a tua família?

  • um dia deixaram-me na escola e não me vieram mais buscar.
  • o meu pai queria violar-me a mim e à minha irmã então fugimos só que me perdi dela.
  • fui brincar para a rua e nunca mais consegui voltar.
  • o meu pai batia-me, fugi de casa.
  • nunca conheci o meu pai, a minha mãe foi trabalhar para fora, deixou-me com a minha avó mas ela veio deixar-me aqui.

Cada história, um murro no estômago. Cada história, a certeza plena que a vida nos atira a todos para pontos de partida muito diferentes. Mas que o ponto de chegada só depende de nós.

Mas desenganem-se se acham que estas crianças são apenas vítimas da sua própria história:

  • quero ser enfermeira
  • quero ser arquitecto
  • quero ser mecânico
  • quero ser professora

Diz-me um dos professores: o grande desafio é adivinhar os sonhos que guardam dentro deles. Aquilo que mais sonham fazer ou ser. E depois fazer isso acontecer.

E é isso que estas crianças estão aqui a fazer: a lutar pelos seus sonhos. Pelo direito a escreverem as suas próprias histórias. A lutar para que não seja o passado que as deixa para trás nesta corrida que todos temos o direito de correr: A corrida para ser feliz.

Não há culpas. Não há lugar a traumas pois se não nunca poderiam ser felizes. Há lugar para sonhos. Ainda que estes sejam obrigados a conquistar espaço às memórias.

Lembrei-me de todos os sentimentos de culpa que carregamos nós, mães de um mundo fácil. E pensei que tontas somos, sempre com tantas culpas, sempre tão cheias de sensações que poderiam ser os nossos erros fracos e medíocres que roubariam a felicidade aos nossos filhos.

Somos um bocado parvas, nós as mães, ao achar que poderíamos ser nós a roubar aquilo que todas as crianças têm por direito ao nascer: o direito de ser feliz. sem traumas. sem merdas. Só porque sim. E ainda bem que sim.

Desculpabilizem-se, vá. Felizmente, as crianças são filhas de uma Deus Mãe maior.

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