Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
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2018

Todos os dias me zango. Todos os dias digo que vai ser diferente. Todos os dias me zango.

Crónica de 08 / 02 / 2018

A primeira coisa que quis quando passei a ter alguma folga orçamental foi ter alguém que me ajudasse em casa, vulgarmente conhecido como, uma empregada a dias.

Ainda antes de começar a trabalhar, era desesperante para mim estar sempre com tarefas atrasadas de limpeza, arrumação, passar a ferro, roupa para lavar-estender-apanhar-dobrar-e-guardar, pó nos móveis, pó no chão, sujidade e brinquedos a multiplicaram-se que nem coelhos.

A razão porque mais me incomodavam estas tarefas é que, inevitavelmente, a escolha recaia sobre a árdua decisão de ser a mãe que brinca com a criança ou a mãe que arruma a casa e faz jantares de avó

Vim para Moçambique, comecei a trabalhar e a extra folga financeira foi novamente investida em mais horas de empregada a dias.

Num país onde todos a gente tem várias empregadas, babás, babysitters e motoristas, podemos dizer que eu sou bastante conservadora: aqui a mona, continua a gostar de fazer algumas coisas sozinha, como ir por e buscar a filha à escola, por exemplo.

Talvez, invariavelmente, a decisão seja: quanto do teu dinheiro queres gastar em assistência ao lar? mas eu, rapariga de alguma forma tradicional, gosto de acreditar que ser mãe não se delega. E as memórias de infância devem ser com a mãe e não com a babá.

Isto significa que continuo a ter uma carrada de tarefas por dia que me cansam, especialmente porque me roubam tempo que podia estar sapo a brincar com a minha filha.

Comprar a comida para a semana. Organizar almoços e lanches da Clara que entretanto mudou de escola e tem de levar de casa. Clara lava os dentes que temos de sair! Vesti-la, vestir-me e sairmos de casa. Clara escolher os sapatos que temos de sair! Conduzir 30 km para o trabalho. Trabalhar. Conduzir 30 km para casa. Ir busca-la à escola. Ir para casa. Clara não atires os brinquedos só porque estou ao telefone! Por a mesa do jantar. Levantar a mesa do jantar. Clara lavar os dentes que temos de dormir! Banho. Clara arruma os brinquedos que temos de dormir! Mala da mãe do dia a seguir. Mochila da filha do dia a seguir. Clara escolhe a história que temos de dormir! Lancheira da filha pronta. Roupa da filha pronta. Limpa rabo de cocó. Pela terceira vez. Claaaaaaaaaaaaarraaa!!! Cama! Já!

Todos os dias me zango. Todos os dias digo que vai ser diferente. Todos os dias me zango.

Às vezes recebo visitas que oferecem ajuda, mais não seja a família. Mas a ajuda nunca é para ocupar este papel difícil que não sei porque carga de agua calha sempre à mãe.

"Vai lá fazer o jantar que fico a brincar com ela!"

"Vai lá preparar a mala dela que a entretenho!"

Nestas horas penso sempre que não preciso de arranjar mais uma empregada. Preciso de duas. Para ser eu a mãe que faz desenhos e legos. Ensina palavras em inglês e francês. E faz festinhas no cabelo enquanto se faz um intervalo nas brincadeiras a ver desenhos animados.

Todos os dias me zango. Todos os dias digo que vai ser diferente. Todos os dias me zango.

Há dias que só queria mesmo era ser daquelas pessoas que se marimba na desarrumação, na hora de jantar, de dormir ou no brinquedo que durou apenas 2 dias. Há dias que queria sentar-me no sofá e, com ou sem empregada, pensar: que sa lixe!

Trabalhava mais umas horas. Pagava mais uma empregada. O (pouco?) tempo livre que tivesse seria mesmo só meu e da minha filha!

Mas tenho cá para mim que, quando olhamos para trás, mãe é aquela que foi chata e presente, que fazia panquecas e mandava arrumar os sapatos, que dava beijos na testa e dizia que estava na hora da cama, que conhecia todos os nossos brinquedos, inteiros ou partidos. E que nos dizia Não! Ainda que para logo a seguir nos encher de beijos e de um bolo que só ela sabe ser o nosso preferido em dias de chuva.

Tenho cá para mim que, quando olhamos para trás, mãe é aquela que estava lá. Para fazer o que fosse preciso.

E então digo a mim mesma que amanhã vai ser diferente. Que amanhã vou ser a mãe que não se zanga. Pelo menos até amanhã ao final do dia, este pensamento vai me consolar. E até convencer.

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