Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
Todos os direitos reservados.
2018

Quando ter filhos te poe sempre em saldo negativo.

Crónica de 19 / 02 / 2018

Digamos que até ser mãe, sempre fui uma rapariga pouco dada ao recato do lar.

Saídas à noite.
Viagens de última hora.
Paixões avassaladoras.

Era uma rapariga cuja maneira de estar na vida era fácil de criticar. Ainda assim, as pessoas que me rodeavam pareciam sempre "aceitar-me como eu era" ou pelo menos acreditar que eu sabia o que estava a fazer.

Depois fui mãe. E depois separei-me. E depois, mãe separada, mudei de país.

Depois de ser mãe deixei de sair à noite. Por muitas razões mas especialmente por uma: porque não queria sair à noite.

E, 4 anos dentro da maternidade, posso dizer que esse foi só um dos comportamentos que abdiquei espontaneamente. No todo, sou uma pessoa mais calma, ainda que por dentro continue a sentir-me com a adrenalina dos 20 anos.

Mas parece que ser mãe te deixa sempre em saldo negativo, a perder algo do melhor que há no mundo, e a teres de justificar porque fazes as escolhas que fazes.

  • Se ficas em casa com a tua filha, é porque não tens vida própria.

  • Se deixas os teus filhos em casa com uma babá, é porque não nasceste para ser mãe e tens um calhau no lugar do coração.

  • Se acordas cedo para brincar com os teus filhos, é porque perdeste tudo o que importa na vida: dormir até tarde.

  • Mas se acordas tarde porque deixaste os teus filhos a destruírem a sala sozinhos ou com os avós ou mesmo a vizinha do lado, estás a criar crianças carentes e com falta de amor.

Relaxa! Estão aqui tantos adultos! Curte a festa!

Alguém me disse este sábado.

Aquilo ficou-me a remoer: será mesmo que as pessoas acham que eu trocava o que tenho ao ser mãe por qualquer outra coisa?

E sim, eu reclamo. Muito até. Que tenho de fazer tudo sozinha. Que não tenho 5 minutos para mim. Que durmo pouco. Que tenho as responsabilidades todas às costas. Às vezes até que, nem que fosse por 1 dia, gostava de por a minha filha numa bolha insonorizada para não ouvir as suas birras.

Mas nunca, mesmo nunca, me ouviram ou ouvirão dizer que trocava a vida que tenho por qualquer outra, onde ela não existisse.

Eu não tenho quaisquer saudades de me deitar às 500 e acordar com dor de cabeça. Ou de acordar quando metade do dia já se foi em vez de ouvir os passarinhos às 8 da manhã.

Eu não tenho quaisquer saudades de uma vida que escolhi deixar de ter. Pelo que todas as queixas que faço da minha vida, são, ainda assim, queixas de quem não trocava esta vida por nenhuma outra.

Portanto, sempre que ouvirem uma mãe reclamar, não tenham pena dela. Lembrem-se antes que ela não trocava esta vida cheia de reclamações por outra impávida e serena, mas sem qualquer rasto de filhos. Ou do sentimento de amor e preenchimento que eles te trazem.

Mais Crónicas:

-->