Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
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2018

Crónicas do eu

Crónica de 05 / 03 / 2018

Comecei a escrever quando tudo na maternidade me deslumbrava.

As hormonas.
O corpo.
O cheiro de um recém-nascido.
O amor que emanava de mim.

Não conseguia respirar qualquer coisa que não fosse ser mãe.

E aquele vulcão de emoções e reacções que saiam de mim impressionava-me tanto que estava, permanentemente, positivamente impressionada.

Comecei a escrever nessa altura, mesmo no pico da avalanche de tudo o que é o pós-parto ou inicio da maternidade: no pico daquela sensação que temos de partilhar com o mundo tudo o que está a acontecer pois as pessoas podem não saber!

Nesse em todo o lado, blogs ou não blogs: as mães de um recém-nascido roçam assim aquela fronteira entre a tolice, a parolice e a auto-superação ou demonstração de capacidades sobre-humanas.

Sim, a malt quando as criaturas acabam de nascer acha que tudo é o máximo, a unha do pé (uuuuh!) o babete sujo de leite (blargh) e até aquelas cabecinhas, carecas, às vezes ainda cheias de crostas (vai-se lá perceber...)

Nada que levar muito a peito: somos todas assim.

Mas depois de termos já partilhado mil fotos da criança estática numa cadeira, outras quinhentas dela cheia de sopa, bolacha ou qualquer outra bodega que os putos comem porque nessa altura é tudo um mero puré, mais uma centenas de videos da criança a dizer gugu-dadá ou mesmo algo com menos sonoridade, um dia eles começaram a falar e a andar, a escolher a roupa e a ter pratos preferidos.

E nesta altura, nesta altura que eles começam finalmente a ser gente, deixamos de partilhar tudo o que fazem, pois nós voltamos a um sitio de onde tínhamos saído: voltámos ao eu.

Se éramos impacientes voltamos a se-lo. Se gostávamos de jantares com amigos voltamos a reuni-los à mesa. Se gostamos de verniz vermelho, saltos altos e uma maquilhagem discreta, abandonamos e esperamos até que os outros se esqueçam aquelas roupas cheias de nódoas de comida que usámos tão orgulhosamente.

Não, não há nada de errado em nós, as que envergámos as nódoas e os sapatos rasos com orgulho deixar-mo-los. Não há nada de errado nem como mulher nem como mãe.

Hoje, sinto que é importante que a minha filha saiba que o meu tempo não é todo dela. Que ela saiba que a mãe pode estar bonita e trabalhar que não a ama menos. E que se não quero fazer legos pela centésima vez é até porque gosto dela. Se não é que me sentia obrigada a mostrar-lhe isso mesmo.

Sinto-me, neste momento, a voltar ao eu, e a escrever-vos mais crónicas do eu que crónicas da maternidade. Mas também sei que ainda bem que assim o é.

Porque ainda bem que, de tudo o que a maternidade me ofereceu, me acrescentou, me fez crescer e descobrir, uma delas foi que não posso nem devo nunca deixar-me esquecida. Perder-me de mim.

Porque a mãe é a primeira mulher na vida de um filho. E o que a vida me tem mostrado é que essa mulher tem de ter uma imagem que é mais que o reflexo de uma mãe: é a imagem de uma mulher que sente o inigualável e incomparável amor de mãe. Ainda assim uma mulher.

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