Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
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2018

Às vezes acho que a Clara é apenas fruto da minha imaginação

Crónica de 07 / 03 / 2018

Tirando muitos defeitos que são do pai (:p) a mi ha filha tem uma série de outros defeitos que são, sem qualquer discussão, meus.

A impaciência.
A imperfeição nos acabamentos.
A preferência pelo multitasking.
A voz, uns decibéis acima da média.
A pouca simpatia quando não interessa.
Os movimentos brutos. (Acordada ou a dormir).
Etc, etc... :)

Há dias que lhe digo para não fazer algo que sei que acabei de fazer, ainda que mais disfarçado.

Quantos dias lhe digo TEM CALMA! quando eu acabei de atirar uma caixa qualquer para o chão só porque as instruções não estavam em letra tamanho 56.

Desde que viemos viver para Moçambique, e a minha ansiedade e pressão disparou estratosfericamente, digamos que qualquer semelhança entre mim e a Madre Teresa ou Buda é fruta alucinação de drogas pesadas.

Estou sempre cansada. estou sempre ansiosa. Estou sempre a pensar em mil merdas que estão per-ma-nen-te-men-te por resolver. Por mim, pois está claro. Que, tal como eu dizia a uma amiga no outro dia, nenhum dos meus problemas pode ser resolvido sem criar má vizinhança :p

Os 40 anos trazem-nos, claro, alguma tranqüilidade. Que no meu caso não se devia chamar bem isso mas sim o saber que o mundo não acaba amanhã, já depois de amanhã não ponho a mão no fogo.

O que quero dizer é que para mim as emoções estão sempre ao rubro. Mesmo quando não estão: só as varri descaradamente para baixo da cama.

Depois há dias, como hoje, que as manhãs são simples e a Clara não fez birra para se levantar. Ou vestir. Praticamente nenhum para se pentear. E, de facto nenhuma, para lavar os dentes.

E eu, que dormi 5 horas, que descobri que andei a lavar os dentes com cocó porque a fossa da casa estava cheia e devolvia água para os tanques da casa, que descobri que todas as casas fixes nesta cidade custam os olhos da cara... e qui ça um de outro lado, eu que já adiei a minha passagem a Portugal 3 vezes porque estou cheia de trabalho e portanto nem faço nem desfaço malas, eu, que comecei a perceber que não posso comprar todas as guerras mas ainda assim comprarei todas as que me apetecer porque soassem venço umas quantas, eu, de repente, estava um nada mais calmo, assim a roçar uma espécie de aceitação. Tal como ela.

E é nesses momentos que penso: talvez ela não exista. Talvez ela seja apenas o meu reflexo num espelho. E eu me vejo apenas a mim quando olho para ela.

Sei que de alguma forma sim, que de alguma forma ela é eu e eu sou ela. Sei-o especialmente quando, para além dos defeitos, ou das qualidades, lhe vejo a alma: uma alma translúcida e intensa.

O problema não é sermos intensos. O problema é aceitarmo-nos como somos. Aprendermos a viver connosco próprios. E é exactamente isso que ela me tem ensinado: **ama-la sempre. amar-me também. Porque aquilo a que o mundo chama mau feitio, nós chamamos personalidade :)

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