Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
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2018

Sobre aceitação.

Crónica de 09 / 03 / 2018

Acho que a semana que passou foi das mais difíceis desde que emigrei.

Já vos falei do que aconteceu à minha casa, mais propriamente, à água da minha casa, e ainda mais exactamente, à água que saia da santa da minha casa e estava a ser devolvida às torneiras da minha casa.

Revoltada, usei o pouquíssimo tempo que tenho livre para procurar casas novas.

Revoltada com várias questões, a primeira e mais essencial foi o ter deixado uma casa em Portugal que eu adorava, e onde tinha uma vida perto do ideal. Perto, pois está claro, porque depois vivia da caridade financeira o que me deixava bastante desconfortável. Mas ficava desconfortável com vista mar, e tinha tempo de ir correr e ao ginásio para desanuviar.

Arranjar um bom emprego, que ainda por cima gosto, mas ter de abdicar de uma vida pacata, e de uma casa confortável é, sem sombra de dúvidas, a prova de que o Karma tem, pelo menos, um grande sentido de humor. Sacana.

Acho que na 4ª feira estava à beira de um colapso nervoso, pois a somar ao desconforto da casa, ao esforço para ver outras casas dentro de um horário completo, ao transito caótico que tem esta cidade nas horas de ponta, às comemorações do Dia Internacional da Mulher, tudo junto fez com que eu deixasse de dormir e, quase mesmo de conseguir pensar direito.

Nesse dia uma amiga disse-me: bebe 1 copo de vinho e vai dormir. Amanhã será um novo dia.

E tinha mesmo de ser. Porque eu não podia continuar assim. Todas as casas que vi tinham ou preços proibitivos ou falta de condições. Todas as casas que vi me faziam sentir ainda mais de mãos atadas, numa vida já com pouco espaço para eu me manobrar.

Todas estas casas me mostravam que eu não podia facilmente sentir-me livre ou feliz. Agora, agora que finalmente tenho um salário e um trabalho que gosto.

Então fiz aquilo que toda a minha família acha que eu faço demais: espernear.

Falei com o meu senhorio. Disse que não podia continuar assim. E ele disse que percebia e que estava disposto a fazer alterações na casa.

E nesse dia, antes de dormir dos melhores sonos desde que cá estou, olhei para aquela casa e pensei: ok, que posso eu fazer para te olhar com outros olhos?

Imaginei janelas sairem, madeiras serem renovadas, chão ser trocado, moveis mudarem de cor e, de repente, passar da confrontação para a aceitação fez-me perceber que é este o único caminho.

A Clara, não precisa de mais uma mudança, precisa de assentar. Esta é a casa que ela já sente como sua e ela não percebia a minha ansiedade. E eu até à pouco tempo também não. Não percebia que a minha dificuldade era a aceitação. Aceitar que esta é a minha vida nova.

Sim, eu esperneio contra tudo o que me causa desconforto e espero continuar assim. Mas aprendi entretanto algo importante no percurso para a felicidade: aprendi a procurar dentro (de mim? da casa?) aquilo que achamos que vem de fora: a felicidade

Agora bora lá partir paredes :)

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