Crónicas das Maternidade

Thoughts, stories and ideas.

Autoria de Patrícia Costa
Todos os direitos reservados.
2018

Coulda. Woulda. Shoulda.

Crónica de 13 / 03 / 2018

Devias ensina-la a dormir sozinha!

Devias ser mais exigente com ela!

Devias deixa-la com alguém mais vezes!

Devias relaxar e curtir mais!

As frases são infinitas. As vozes, quase sempre de outros, mas por vezes também da minha cabeça: a sensação que sabemos como a vida deveria ser parece ser como respirar: basta estar vivo para o fazer.

Já dei por mim, mais recentemente a fazer o que penso: que é responder opinar sobre a vida dos outros é fácil. Vive-la já é bem mais difícil.

Às vezes digo-o a mim própria. Porque eu própria, por vezes, pareço duvidar de mim mesma.

Recentemente tenho navegado demasiado esses mares. Porra que merda! Porque não consigo ser dona de casa, mãe, trabalhar seniormente, ainda ter vida social e estar sempre tudo bem?! Porque não consigo ser boa em tudo?!

Estava a dar em louca: não estou numa altura que possa deixar cair qualquer um das minhas funções.

Ai se eu pudesse... Ai se tu pudesses...

Ai se eu fizesse...Ai se tu fizesses...

Ai se eu tivesse...Ai se tu tivesses...

Às vezes são os outros. Às vezes somos nós. Esta ideia de que a realidade podia ser diferente se isto ou aquilo atira-nos a todos para este lugar de frustração: aparentemente, poderíamos, se quiséssemos, estar noutro ponto da nossa vida.

**Mas há imagens que guardo na memória para sempre. E que me salvam quando eu me recuso a afundar. E uma delas é esta, da Samantha do Sex and the City, personagem impossível de adorar por várias razões, (sem duvida uma delas porque não estava nem ai para a opinião dos outros), a dizer:

Coulda. Woulda. Shoulda.

Don't dwell on the past. Things happen. Mistakes will be made. Don't say no because of fear to fail because those will be the regrets you keep. Enjoy life and do not let the "what if" thoughts stop you from opportunities.

Agarrada a esta imagem, decidi voltar a pé da oficina onde fui deixar o carro porque avariou o ar condicionado. Precisava de andar. De deitar fora. E olhar para dentro. De não ouvir nada. Além do muito barulho da rua. Para que a minha cabeça não pensasse em nada mais que por um pé à frente do outro. Coisa que nem consigo fazer hoje em dia: caminhar!

Comecei a andar à deriva. A sentir que só podia parar dali a várias horas. Caminhei. Caminhei. Caminhei.

Comecei a contornar a ansiedade não tendo medo de a mandar para fora. Sentindo toda a sua força primeiro.

Depois comecei a virar, aleatoriamente, à esquerda ou à direita.

Passei por um funeral. Onde, vestidos de preto, num dia de 40 graus, as pessoas caminhavam, cabisbaixas, a segurar a mão de um velhote.

Passei pelo Centro de Oncologia. E olhei, de lado, para a cara das pessoas, sentadas nas escadas, do lado de fora, à espera de um milagre, de uma notícia, ou talvez só mesmo de puderem sair dali com a pessoa que deixaram lá dentro.

Passei por palacetes abandonados.

E passei por N escolas, com aquele barulho que só as escolas têm das gargalhadas altas das crianças, com muros pintados de todas as cores para que ninguém se esqueça que a alegria tem som e tem cor. E cheira sempre a criança.

Depois, enquanto caminhava ao longo do quartel, começou a pagar em cima de mim. Olhei para o céu. Nem uma nuvem. Quer dizer, estava lá uma. Minúscula. Praticamente sem cor. A deixar cair 15 pingos de chuva em cima de mim. Ri. Ri muito.

É que de facto é tão mais fácil olhar para o mundo e ter a certeza do que deve ser, como deve ser e como se deve fazer. É tão fácil olhar para o mundo e achar que esta pequena nuvem não tem o direito de existir num dia de 40 graus. Mas lá estava ela: lá estava ela a relembrar-me que, felizmente, a vida existe para além do que é óbvio ao olhar.

Atravessei a rua e não voltou a chover. E cruzei-me com uma rapariga, bem mais nova que eu, vestida e tapada de roupa preta dos pés à cabeça. E eu, de camisola de alças transparente e calças largas às flores amarelas.

Iguais. Perfeitamente iguais. Porque todos nós vivemos para fugir das nuvens de chuva. Esquecendo-nos, muitas vezes, que não é a cor do céu que diz se vai chover.

**E todos os dias que passo aqui e me fazem olhar para o mundo e lembrar-me que somos todos iguais, a lutar pelo mesmo, com pedras no caminho, e a escolher se dançamos à chuva ou se nos escondemos em casa, são Dias que agradeço.

Dias que agradeço ser abençoada pelas únicas 15 gotas de chuva de um dia de sol com 40 graus.

(E claro, ao Sexo e a Cidade ;))

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